■ LOCALIZAÇÃO
Localizada no bairro Serraria, no denominado localmente Loteamento Canaã, a Igreja foi planejada para uma comunidade em crescimento. O bairro pertencente a cidade de São José, [cidade da grande Florianópolis] predominantemente é residencial e sofre uma urbanização rápida com muitas obras em execução, tanto de conjuntos habitacionais como de unidades residênciais. O aumento de sua densidade demográfica também se intensifica por se tratar de um zoneamento específico ARPP (Área Residencial Predominante Popular), a especificidade “popular” faz com que a área tenha lotes menores do que o mínimo estipulado pelo plano diretor que é de 30 metros por 15 metros.
Uma igreja com 300 assentos já comportaria com facilidade a atual comunidade, mas em função dos dados citados foi feito um projeto levando em consideração as perspectivas de crescimento. Optou-se pela capacidade de 600 fiéis.
O partido arquitetônico parte do gesto de fincar uma cruz ao solo, a cruz [representada pela torre] que aponta para o criador, ela é o símbolo do markabah - da condução divina - rasgando o céu e alcançando o terreno. A cruz que simboliza a intervenção divina é o proprio Cristo.
O céu na arte sacra pode ser representado por uma concha, a cobertura do edifício foi desenhada como tal - representando o reino dos céus - enfatizando o conceito da cruz rasgando o céu. Pela clarabóia é possível do interior da igreja se ver o fim da torre e o céu “físico”, que aqui representa o céu do céu.
Para que o conceito fosse facilmente visto por todos fiéis ao longo do culto, colocou-se uma cruz no interior da igreja elevando-se por todo pé direito.
■ Ichthys
O cristianismo era proibido com pena de morte aos seus seguidores até o ano 313. Neste período foi traçado um dos mais antigos símbolos dos cristãos: O peixe. Ele era utilizado como símbolo de devoção e comunicação entre os fiéis. Este símbolo era desenhado como um código interno para comunicar o crescimento das comunidades cristãs.
A palavra peixe no idioma grego é ίχθύς traduzido foneticamente para ICHTHYS.
Ela gera o acróstico Iésús – Christós – Theoú – Hyós – Sótér que significa: Jesus – Cristo – Deus – Filho – Salvador.
Similar a vésica piscis o Ichthys é desenhado ao centro da obra, as terminações dos traços (rabo do peixe) são as escadas que dão acesso a casa de Cristo (Jesus Cristo Deus Salvador)
Ao lado deste centro que representa cristo, temos as 12 águas do telhado emoldurando o centro, finalizando a cobertura, o abrigo dos fiéis. Os 12 apóstolos que estruturam todo cristianismo e contam a boa nova.
■ Vesica Piscis
Um símbolo antigo encontrado em culturas diversas, no Egito antigo por exemplo encontramos tal desenho com a mesma simbologia utilizada no cristianismo. A vesica piscis simboliza: origem, gênese, nascimento, criação, ela é muito utilizado nos ícones do Cristo Pantocrator (todo poderoso) quando Cristo é desenhado representando Deus, todo poderoso criador de tudo.
O sentido de gênese e criação também é atribuído a Maria a gestora que deu luz a Cristo. No caso deste projeto o símbolo está circunscrito na geometria central, que contem o eixo cronológico de Jesus.
■ Assembléia
Liturgicamente o presbitério deve situar-se ao centro da igreja com a assembléia ao seu redor. Este leiaute possui algumas dificuldades de aplicação por questões de ordem prática. Logo, quanto mais a distribuição da assembléia se aproximar desta conformação mais apto a correta aplicação da liturgia o espaço estará.
A assembléia faz parte do rito, o fiel não é um espectador, isso é facilmente visível se levarmos em consideração que foram adotados bancos somente no segundo milênio, se mantém os bancos tradicionais coletivos para propiciar a união comunitária, base da Igreja.
As portas das salas e capelas não são visíveis na nave da igreja, assim como as janelas são colocadas nas terminações das “asas”. Esta disposição está a serviço do espaço sagrado que respeita o tempo sagrado, fazendo com que a experiência em seu interior tenha como entorno o tempo mítico, e não do tempo do trabalho, ao adentrar um espaço sagrado, o fiel torna-se contemporâneo as suas divindades, o relógio pode afetar a reflexão e a experiência de Deus. Além da questão temporal, este desenho também ajuda a reduzir a visualização de eventos que possam vir a distrair o fiel no culto.
A igreja possui duas portas de entrada e uma saída de emergência aos fundos, que também é o acesso para deficientes físicos.
A iluminação da assembléia é realizada toda de forma indireta com luminárias desenhadas sobre os refletores, fazendo com que a própria paróquia possa fazer a manutenção de troca de lâmpadas, sem a necessidade de andaimes, excluindo a contratação de empresas. As lâmpadas utilizadas foram de vapor metálico com temperatura de cor de 4000K para definição da quantidade luminosa foi feito projeto luminotécnico.
■ Materiais
A igreja é composta de estrutura com: vigas e pilares de concreto armado; lajes de concreto armado mistas, pré-fabricadas e maciças; vigas metálicas treliçadas sustentam a cobertura de telhas metálicas com isolamento termo-acústico e forro de madeira.
O piso da nave é de granilite e de cimento queimado nas circulações, no presbitério temos pedra, na sala de controle carpet e o restante porcelanato.
As paredes são somente de fechamento e possuem espessuras variadas e todas são revestidas com a monocapa minerale da weber, sem reboco, detalhes são revestidos de pedras.
Esquadrias são com sistema pivotante de vidro temperado. As portas internas lisas pintadas de branco, as portas de entrada possuem um desenho específico.
Texto retirado da monografia "Igreja de Nossa Senhora Aparecida da Cidade de São José. Processo de Criação e Análise Arquitetônico-Litúrgica do Edifício" de minha autoria.
No primeiro milênio da história da Igreja Católica, as missas eram feitas com todos de pé ao redor da mesa da eucaristia, nela todos comungavam. A mesa da palavra encontrava-se próxima, onde o presbítero erguia-se para proclamar a palavra; sua cadeira da presidência estava de forma sóbria e simples formando esta tríade.
Os elementos fundamentais para celebração eram expostos de forma singela e com extrema beleza, a Igreja como edifício, era erguida com a função de abrigar-los; o centro da liturgia era facilmente identificado, assim como a verdade da palavra de Cristo.
Com o passar dos anos, os interiores das igrejas perderam o foco, tornaram-se espaços de adoração a santos, de pinturas virtuosas e de demonstração de status. Já não é fácil vislumbrar o centro [Cristo], isso faz com que haja uma busca de significado e valorização excessiva de elementos menores.
A reforma litúrgica do século XIX iniciou as mudanças que culminaram, na década de 60, no sacrosanctum concilio, Concílio Ecumênico Vaticano II, que em sua essência, busca o retorno as origens do culto católico, estruturado pela igual dignidade de todos fiéis.
No Brasil, em especial, o concílio possui uma revolução maior no modo de celebrar e organizar os espaços. A última grande reforma litúrgica da Igreja foi em 1563, no Concílio de Trento.
Logo, até 1964, o Brasil viveu somente uma liturgia, e o Concílio Vaticano II, é a primeira grande mudança que vivenciada desde a implantação do cristianismo no Brasil.
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■ SOBRE O NOVO INTERIOR DO EDIFÍCIO:
Pela luz que se faz no interior do corte na parede de fundos, vislumbra-se o símbolo maior da fé cristã, de forma simples e bela, símbolo que intitula a paróquia. A Santa Cruz.
A liturgia estrutura-se em três bases: Altar [mesa da eucaristia], Ambão [mesa da palavra], Sedia [Cadeira da presidência]. Estes 3 elementos foram desenhados com materiais e linhas semelhantes para revelar conceitos de; “simplicidade formal sem pobreza de composição” e de “beleza sem ostentação”.
O material utilizado ilustra o conceito de Verdade e solides. A Igreja católica tem Cristo como a única absoluta verdade. Sendo assim, o granito maciço e de acabamento bruto [levigado] foi o material empregado nas peças; mostrado aqui de forma crua e verdadeira.
O altar é o centro da Liturgia, ele no projeto ganha o destaque que as celebrações pedem. Seu desenho possui linhas elegantes, estruturadas na proporção áurea; alcançando na simplicidade a beleza; nos remetendo ao cenáculo; à mesa da santa ceia.
[Missa de consagração presidida pelo Arcebispo Dom Murilo Krieger]
A palavra Ambão vem de do grego Anabaino que significa “subir, elevar-se”, a Palavra que vem do reino dos céus. As linhas verticais e a forma que apontam para cima, ilustram tal conceito.
Nas celebrações o povo Deus está sob a presidência do ministro ordenado, que celebra “in Persona Christi”. Ele é o Cristo cabeça que tem na assembléia o seu corpo eclesial. Este conceito é materializado na Sedia ou Cadeira da Presidência, aqui desenhada com simplicidade formal, porém, com a escala necessária para que se alcance os conceitos citados.
O batistério foi desenhado em forma octogonal, fazendo referência ao oitavo dia, dia da ressurreição; é a nova criação do mundo em Cristo, o novo Adão; todos nascemos como Adão e é no batismo que somos resgatados. Este octógono está inscrito numa Vésica Piscis, um antigo símbolo presente em várias religiões que simboliza a criação, a origem.
A cultura e a tradição também foram respeitadas nesta obra, as belas obras de arte que fizeram parte por tanto tempo deste espaço, foram restauradas e possuem seu lugar junto ao presbitério.
Os patamares do presbitério focam na hierarquia dos elementos litúrgicos. O batistério encontra-se junto à assembléia, a capela do santíssimo e os santos, a dois degraus de altura.
No terceiro degrau, que busca o número 3, número do Deus trino – da santíssima trindade – temos altar e ambão. E, finalmente, no patamar mais elevado, a Sedia.
Nas laterais ao fundo encontra-se o ripado de madeira crua [retirada da antiga igreja], estes tem a função compositiva de emoldurar o presbitério, enfatizando os elementos ao centro. Estas estruturas ainda possuem a função de esconder a abertura criada para ajudar na ventilação cruzada.
Todos conceitos aqui citados são enfatizados pela iluminação cuidadosamente projetada, desde a luz amarela ao fundo, trazendo o conforto das cores quentes [cores do divino], as luzes focais que apontam os elementos litúrgicos. Este cuidado também pode ser visto na iluminação indireta da nave, que evita o ofuscamento para os usuários.
Com esta reforma a Igreja Matriz da Santa Cruz torna-se um exemplo a ser seguido, de templo que está em sintonia com os conceitos contemporâneos da Igreja católica e de espaço que conduz ao mistério em harmonia com a comunidade que o idealizou.
[acima] Arq.Eduardo Faust e Padre Leandro Rech
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01.3 | Layout e dados técnicos
■ A O projeto passou por uma reformulação do layout das salas anexas a nave. Foram criadas nas laterais do presbitério: Sacristia, capela do santíssimo e sala de controle de som e luz. Aos fundos: Capela da reconciliação [o antigo confessionário], sala de dízimo, Sacristia e sala de imagens.
■ Foi redimensionado e atualizado o sistema de sonorização.
■ A igreja antes da reforma tinha capacidade para 600 pessoas, foi construído um mezanino ao redor da nave com estrutura metálica, forros acústicos e detalhamentos de steel frame – dry wall e vidro laminado. Com o mezanino o edifício hoje conta 1000 pessoas sentadas.
■ Este projeto é a primeira etapa de execução de um projeto completo já pronto. Reforma do exterior do edifício com a criação da torre. Alas anexas com projetos para: Casa Paroquial, Centro de Evangelização e Salão paroquial.
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■ ANTES E DEPOIS
CHURCH OF THE HOLY CROSS
Igreja Matriz da Santa Cruz
Architecture: FAUST
Location: Areias, São José, Santa Catarina, Brazil
Principal in Charge: Arq. Eduardo Faust
Liturgical Furniture Design: FAUST
Lightning Design: FAUST
Structural Steel Engineering: Damiani Metal
Built Area: 1060.00 sqm [m²]
Project Year: 2008-2010
Photographs: Ro Reitz